Fulerô O Esquema
Feminina, Não Feminista (Portuguese version)
By Bruna Rocha
 
 
Ouça duas versões de 'Pinga'  do Fulerô O Esquema abaixo:
 

A primeira coisa que queremos saber é: como começou o Fulerô?
PP: Há cinco anos atrás, no dia da morte da Cássia Eller… era um revéillon, estávamos chegando na praia e assim que descemos do carro ouvimos sobre a morte da Cássia. Nesse momento todo mundo ficou num buraco negro, porque até então nós achávamos que ela era a grande representante feminina na música brasileira, na música popular brasileira, no rock’n’roll. Ela tinha uma postura não só musical como performática que nos agradava e interessava muito, então a partir do momento da morte dela todo mundo se olhou e falou “Puxa, a gente podia ter uma banda, por que depois que a Cássia foi embora o que vai sobrar?” E esse foi o primeiro impulso pra que o Fulerô aparecesse.

AP: E ao mesmo tempo que a gente fez essa viagem a gente tava lendo Please Kill Me [Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk]. Lá falava do início dos Ramones, quando eles não sabiam tocar instrumento nenhum mas eles tinham alguma coisa pra dizer, e a gente achava que também tinha. A gente vinha do teatro, de anos de cinema. O livro foi um livro meio comunitário, foi engraçado, eu levei esse livro, a gente estava na praia, e a gente começou a ler ao mesmo tempo e aí foram dias na praia e quando a gente chegou nesse trecho todo mundo junto (risos), a gente resolveu que ia fazer uma banda.

PP: É, o primeiro Fulerô foi uma banda, nós tínhamos percussão, guitarra, baixo, dj e os vocais, e aí… o que aconteceu na nossa trajetória? A opção pelos djs. Por que? Porque a produção com os djs é muito mais rápida, muito mais próxima da nossa realidade de fazer música – dês do primeiro instante até hoje o Fulerô é uma ação independente. E esses foram os caminhos que se abriram pra gente. Tínhamos amigos djs e sempre fomos muito envolvidas com a música eletrônica, com o ghetto tech, com o rap, com o jungle, enfim, tudo quanto é batida quebrada. E isso tudo vinha de encontro com essa postura que o Fulerô passou a ter com a presença do dj, a nossa postura como MCs, como mestres de cerimônia. O que vem a ser isso? A gente volta lá na década de 80 com Africa Bambaata, que na verdade eu tenho 38 anos, a Dri tem 34.

AP: 35.

PP: 35, opa! E isso é uma realidade na minha vida e na dela. Tanto eu quanto a Dri, cada uma de nós vem de um lugar diferente na cidade, eu nasci na zona norte, tive influência da música popular em geral, o samba, o samba-de-roda, o partido alto; a escola de samba é uma coisa muito presente na minha vida. O que mais a gente pode tirar de toda essa influência musical? A liberdade que o samba traz. A liberdade que uma noite de música eletrônica também traz. O dj tá ali, você tem um microfone, o som às vezes não é o perfeito mas é o que a gente pode produzir, e essa liberdade foi o que fez com que o Fulerô começasse a firmar os passos. Né, Dri?

AP: As influências são muitas que a gente tem, mas eu acho interessante o fato da gente ter vindo de lugares diferentes da cidade, de difícil comunicação; eu nasci no Bixiga, depois fui pra Granja Viana, na zona oeste…

PP: E eu na zona norte, lá no Jaçanã; a gente nunca ia se encontrar se não fosse a arte, se não fosse antes do Fulerô, o teatro que foi onde nós nos conhecemos. Por que eu gostei do trabalho da Dri e a Dri gostou do meu trabalho. E aí a gente criou amizade. Fomos morar juntas em 2001 e o fato de morarmos juntas só afirmou a ebulição de idéias e desejos diante do ostracismo e da falta de postura que a gente via na música, no próprio teatro – as pessoas perguntam “Ah você é artista, que novela você fez?” e a gente não faz parte desse, quer dizer, a gente faz parte desse meio, mas não desta forma.

AP: A Paula trabalhou com o Zé Celso, eu trabalhei com uma linha mais do Antunes, trabalhei com o Brás, Rubens Rusch, que é um povo mais tradicional de teatro de pesquisa, enfim, a gente aprofundou muito nesse sentido do teatro de pesquisa mas aí a gente se pergunta, “Mas o teatro de pesquisa leva você aonde?” (risos) Aqui no Brasil você vai passar fome fazendo teatro de pesquisa, ou vai ganhar uma merreca, e isso te limita, você está sempre fazendo a viagem do outro. De repente o Fulerô surgiu como uma coisa autoral. O Fulerô é happening, é música, mas a gente integra dentro do Fulerô tudo que a gente tá falando, a gente mistura política que a gente está vendo, as eleições que estão aí, a Daniela Cicarelli que foi pega na praia com o namorado... a gente está misturando o tempo inteiro a atualidade. Então tanto a gente bebeu do clássico.

PP: Shakespeare, Nelson Rodrigues, Boal, Hilda Hilsh, enfim, várias influências nacionaís e –

AP: Almodóvar, enfim, e a gente bebe do cotidiano.
E como evoluiu o Fulerô nesses cinco anos?
PP: Muito bem. Eu pego pela experiência de vida que a gente tem dentro do teatro que é 15 anos da Dri, 18 anos meus, de muito trabalho mesmo, e isso tudo trouxe pra gente algum reconhecimento? Sim. Só que com a música em 5 anos a gente conseguiu abrir muito mais portas do que com o teatro. A música toca o espírito. O teatro é a arte do homem, é a repetição da realidade. A música transcende isso tudo. O som ultrapassa qualquer fresta.

AP: E evoluiu assim, a gente começou a ser chamada para cantar com dj e não chamar a banda toda, foi uma coisa meio natural que aconteceu.

PP: E a própria banda, alguns integrantes tiveram que se afastar por problemas particulares, por terem outras profissões, e por acharem que não podiam estar no Fulerô, que o Fulerô era um pouco subversivo demais. Uma das integrantes saiu por causa disso. Sem julgamento, é um fato, cada um faz de sua vida o que quiser. Então acabou chegando ao que é. Esse impulso criativo de fato, essa vontade de trabalhar com a música era minha e da Dri.

AP: A primeira vez que a gente tocou com dj foi com você.

PP: Foi com a Bruna Rocha! (risos)

AP: Porque a galera tinha um certo preconecito, como se a gente fosse só um happening, só uma performance. O engraçado foi que a gente fez com você e aí começou a pintar uma ou outra coisa e então foi uma compra geral, bom, o Camilo [Rocha], o Érico [Theobaldo] e o Perda Total sempre apoiaram a gente, sempre chamaram a gente pra fazer em várias instâncias da nossa carrreira dês de lá no início quando ninguém chamava a gente pra tocar até agora que a galera chama a gente, e o Jerome [Hill] também. Talvez a gente tenha deixado mais claro. O que a gente fala é muito subversivo, é de protesto, e em alguns momentos as pessoas não entendem a piada, se perde um pouco, demora, tem que ver a gente pra entender com a performance o que a gente é. E nós vamos descobrindo fazendo também. Nessa semana passada a gente entrou de pijama, a gente tirou e falou “I’m a Brazilian girl / I’m a poor girl / living in a poor country” daí a gente mostra a bunda, sabe, com lantejolas coloridas e aí você fala “Isso é Brasil”, é a imagem que o exterior tem do Brasil, e a gente não quer ir contra, a gente quer afirmar essa imagem que a gente tem, nós fomos colonizados.

PP: É uma verdade.

AP: É uma verdade isso. E acho que não tem que lutar contra isso, acho que a subversão está exatamente em aceitar isso.
 
PP: E rir disso. Porque o grande barato do Fulerô é que a gente usa essa grande confusão de sons e isso traduz a vida que a gente leva hoje em 2006. É uma avalanche de informações, TV, computador, tudo é ligado, tudo é plugado, você tem que saber tudo rápido, a vida pessoal de cada um cada vez vai tendo menos espaço porque a vida está tão corrida que você tem que cada vez correr mais atrás disso. Então foi uma junção de informações de música, que a música eletrônica traz, que é quase que um caos, e o nosso caos, nas letras, que espelham o caos que a gente vê. Só que a gente faz o que com isso? Traz uma postura de graça. Não é comédia, é graça.
Falando disso queríamos que vocês nos falassem a respeito das suas letras. De onde vem sua inspiração para as letras que vocês criam?
AP: Olha, vendo as coisas que a gente vê.

PP: E vivendo as coisas que a gente vive.

AP: A gente está vendo e vivendo as coisas. É uma postura crítica que a gente tem. Quando a gente canta “Eu quero fazer novela”, a gente não canta que a outra quer fazer novela, é um imaginário brasileiro. Você vai num lugar mais simples, e qualquer menina quer fazer novela, e os caras querem jogar futebol, é a única ascenção social possível dentro da estrutura social que a gente vive. Não tem como você elevar a sua classe social a não ser que você dê prum cara muito rico, vire atriz de televisão, ou seja um jogador de futebol. Então as letras são exatamente críticas. A primeira letra que a gente fez foi “Os muçulmanos também amam, por que você não pode amar um muçulmano?”

PP: Diante da tragédia.

AP: A gente falava por que que as pessoas estão brigando?

PP: Deixa os caras serem quem eles são. O mundo tem espaço pra tudo. Pra qualquer forma de pensamento, qualquer postura sexual, religiosa, política. Por exemplo, quando a gente fala da Mina de Família, a Dri teve a idéia de compor o mote pensando no que as mulheres de hoje vivem. A gente está numa época em que tudo pode, você pode transar com 4 pessoas, você pode ter uma namorada, um namorado, só ter um namorado, você pode tudo. É diferente do que já foi a vida pras mulheres, principalmente nesse aspecto. E aí a Adriana sofreu uma decepção, ela saiu com uma pessoa que no outro dia colocou a mão no ombro dela depois de ter dormido com ela e falou “Oi, tudo bem, como vão seus gatos?” (risos)

AP: Eu falei “vão bem, e os seus cachorros?”

PP: Não que a pessoa tenha que ficar com você, a gente tem liberdade pra fazer o que quiser.

AP: Foi o jeito que a pessoa falou, parecia um estranho, como se a gente nunca tinha se visto.

PP: E ela tinha acordado com a pessoa. Então a gente falou assim “será que a gente é louca? Ou está todo mundo num buraco negro e fingindo que não está acontecendo nada?” As mulheres: “Não, está tudo bem, eu sou chutada”. No próximo dia o cara fala “Oi tudo bem, pão na chapa”... Não é isso, eu acho que não. Porque de onde eu vim, as mulheres que eu tenho como exemplo são mulheres que trabalham demais, sempre tiveram muita responsabilidade – isso é um fato no Brasil – várias mães carregam suas casas sozinhas. Os pais somem. As mulheres são a estrutura aqui. De fato. Ou é alcoolismo, ou é não sei o quê, os homens são fracos nesse sentido. E a gente só vê humor de homem, a gente só vê homem falando que mulher é puta, não! Vamos falar que os caras também não estão com essa bola toda.

AP: São uns idiotas às vezes. Então a Mina de Família é isso, a letra é um discurso de uma garota falando exatamente dessa questão – “eu sou uma menina de família, não é porque eu estou aqui em 2006 que a gente faz tudo que a gente faz, que a gente é louco, que a gente não quer alguém que nos ame”.

PP: O amor é uma coisa que qualquer ser humano nesse planeta deseja, ter alguém bacana do lado. Com certeza. Eu acho que quem tem a opção de sair com muita gente, ficar levando relacionamentos triângulos e tal, é muito legal, mas ou você tem um estrutura emocional fudida, ou você corta os pulsos. Uma hora vai estourar pra alguém da ponta desse triângulo. Então o que é isso? Quer dizer que agora todo mundo é doido, e ninguém quer saber mais, ninguém quer ter um filho. Ter filho é careta, se você tem filho você não pode fazer mais nada. Porque parece isso, tem um movimento contrário, a mulher conquistou uma liberdade que eu não sei até onde serve. Porque com essa liberdade que a gente conquistou, a gente dobrou a carga horária de trabalho dentro e fora de casa. As mulheres cuidam dos filhos e, no caso do Brasil, chegam em casa e não tem nem o cara pra lavar um copo pra ela, entendeu. Isso é uma crise social ferrada, velada.

AP: Mina de Família é um retrato da mulher de 2006. A gente foi tanto pra uma coisa de liberdade, liberdade, liberdade, que isso gerou uma solidão muito grande também, é uma falta de você saber quem você é, então a música é uma brincadeira. A gente tem uma coisa muito do lúdico, então nossa crítica sempre vai pela piada. É uma menina que fala “Puxa, eu sou uma pessoa legal, eu sou uma mina de família, eu tomo banho todo dia,” (risos) “por que que eu não tenho namorado?”

PP: E “Os caras de fuder tão com umas mina nada a ver e as mina de fudê tão com uns maluco nada a ver”, fala das vezes que você tem uma relação com um parceiro e a relação é uma merda; você sabe que a pessoa te trai, você trai a pessoa, e você fica ali. Isso é ser moderno? Eu acho que é ser hipócrita né? A minha visão da relação humana, da relação homem-mulher, mulher-mulher, enfim da relação de amor, eu acho que nada melhor do que você conseguir afinar as idéias.
Antes de falar sobre o vídeo gostaríamos de falar sobre Pinga
AP: A gente tem uma questão que aparece em Pinga e em Miss Kitten também, que é a questão das drogas legalizadas e das drogas proibidas. A diferença delas é simplesmente de nomenclatura. A gente vive numa sociedade onde basicamente todo mundo é drogado.

PP: O alcoolismo é permitido.

AP: Cigarro, café...

PP: Açúcar...

AP: Prozac, maconha, êxtase, cocaína, enfim, todas as drogas estão por aí. A Pinga é exatamente uma brincadeira com uma garota que encheu a cara, sai locona, só que a gente fala “Se beber não dirija, se dirigir não beba,” e é exatamente isso, é proibido, não é proibido? E aí, a gente pode né, e aí você pode sair dirigindo depois, você pode bater o carro, é a coisa do legalizado.

PP: É uma dialética nisso.

AP: É uma dialética. E a Pinga surgiu como uma bobagem.

PP: Uma brincadeira.

AP: É uma brincadeira, lúdica, de uma bêbada que saiu por aí falando um monte de coisa. Foi aí que a gente descobriu quantas pessoas tem preconceito. A primeira vez que a gente falou “buceta”, as pessoas passavam mal.

PP: Só pode falar “pau”.

AP: Só pode falar “pau”, só pode falar “vai se fuder”.

PP: “Cú”.

AP: É sempre relacionado ao humor masculino. Quando você vai falar uma coisa de humor feminino, quantas pessoas não se chocam com “Quero dar minha buceta”!

PP: É natural isso, pelo amor de Deus!

AP: É natural, quantas pessoas transam, ué.

PP: A questão é, a música fala assim “Pinga, pinga, pinga/Fulerô o Esquema diverte/ Se beber não dirija, se dirijir não beba/ Botei pinga na caneca/ Bebi tudo, fiquei bêba” – quando a gente fica bêbabdo, homem, mulher, cachorro, o caralho que bebeu, perde a noção. O álcool – eu já vi de tudo: o álcool é a única droga que tira a moral do ser humano, “cú de bêbado não tem dono”. Então nessa hora, a pessoa tira a roupa, a pessoa se perde, a pessoa tira uma também, curte. Quando ela bebe e não bebe ao ponto de cair numa calçada ela tira uma onda, ela olha uma pessoa e fala “hummm, eu estou aqui e essa bebida está me deixando…adoro” – a libído, a bebida vai diretamente na libído e é muito legal mas até que ponto, aonde tá a linha de limite, porque é muito legal você ficar com alguém, só que quando depois que você ficou com a pessoa você vai vomitar no banheiro, passar mal e tem um coma alcólico e a pessoa vira as costas e vai embora, é OK? Cadê a humanidade dentro disso? Então a Pinga é uma tiração de sarro mesmo, é tipo “Beber pode, né?!” Eu nunca vi ninguém que fumou maconha, ninguém que cheirou cocaína, ninguém que tomou êxtase no estado que eu já vi as pessoas que bebem. Mesmo. E é a droga legalizada no mundo. Aonde é que está o nó na política disso? Quem é que tá levando o dinheiro?
 
AP: E tem essa coisa de bêbado poder fazer tudo. Carnaval, liberação, a coisa do “não lembro o que eu fiz”. (risos)

PP: Isso é legal. A bebida também pode ser uma puta muleta. “Ai, eu não lembro o que eu fiz”. Eu posso falar, eu já bebi umas várias, e eu sempre lembrei do que eu fazia.

AP: Eu também. (risos)

PP: Eu podia estar lambendo o chão mas eu estava ligada que eu tinha que levantar. Mas é isso, é uma crítica à essa liberação, à essa coisa velada, cínica que existe no mundo de proibir.

AP: E também a brasileira é muito vista como puta em todo o mundo de uma maneira geral. Você abre a revista e vê a Daniela Cicarelli, você vê todas as bundudas, então realmente você tem idéia que brasileira é uma bunda e é uma puta. A gente tem então uma subversão com a questão do sexo que é uma brincadeira… é muito engraçado a gente vendo o colonizado falar palavrão…
Vocês têm uma letra a respeito…
PP: Novela. Todo mundo só quer fazer novela, quer ir pra Caras, quer botar botox, é uma questão.

AP: Externa.

PP: Vira mutante.

AP: É. E o problema não é isso, não é a plástica em si. Não gosta de alguma coisa em você, quer mudar, a gente não tem um preconceito com isso. O problema é quando a referência vira o outro. É quando você não faz mais pra você, é quando você está fazendo pra ser aceito pelo outro, para ser igual a tal pessoa.

PP: Meu primeiro amigo desde criança foi um homosexual que foi morto, e foi muito louco isso, porque aos 13 anos de idade ele já se transformava. E eu ia pra casa dele ver ele se vestir. E ele começou a colocar silicone. Isso na década de 80. Não era esse silicone que é hoje, era colocado com siringa. E eu vi a mutação dele. Só que a diferença dele pra essas mulheres é a coragem dele. Ele não está indo pra frente da câmera, ele está indo para a  calçada. E a coragen dele de se transformar. Ele é um homem. Ele vai se transformar numa mulher. Pra mim isso é admirável. A Claudia Wonder pra mim é admirável. Por que o ser artístico da Claudia está à frente de qualquer coisa.
Já que estamos falando da Claudia vamos falar sobre o clip.
AP: A gente fez esse roteiro...

PP: Independente! (risos)

AP: Era exatamente essa história da garota – que somos nós – que fica sozinha; da garota legal, gente boa, que cuida do seu homem, que é trocada pela primeira siliconada que passa. A gente foi dar uma entrevista pra Claudia [Wonder] na G Magazine e aí ela tava falando do preconceito que ela sofreu.

PP: Por ser uma transsexual.

AP: E aí a gente sentiu que o preconceito que a gente sentia era fichinha do lado do preconceito que ela sentia. E a gente achou que fazia um enorme sentido colocar ela fazendo nosso papel de mulher, sendo a Mina de Família e daí colocar uma menina bunduda, enfim, daquele jeitão que a Taís faz, fazendo isso, esse outro lado. E o cara largando a Mina de Família, e a Mina de Família sendo uma transsexual mesmo. Foi uma opção da gente de tocar nessa ferida.

PP: A exclusão existe em todas as instâncias. Uma coisa que eu não concordo no rap é a postura que o rap tem até hoje, como se só eles fossem excluídos: “Os pobres, os pretos, nós somos excluídos.” Mas fala de gay. Fala de transsexual. Eles querem queimar vivo! A maioria das pessoas que estão no rap têm essa postura de homofobia! Então quer dizer mano, você está falando da sua exclusão e não quer enxergar a do outro?! Como assim?! Que mundo que você vive?! Qual é a corrente de união que você vai fazer? Se você também é um excluído, enxergue o outro e respeite o outro. Não queira exterminar o outro.

AP: Mina de Família veio daí. Aí a gente colocou vários djs porque a gente tem uma coisa de tocar com muitas pessoas. Vira um encontro com cada um dos djs, um tipo de som diferente. A gente não tem um estilo de som fechado. Todo mundo que chamar a gente pra cantar, seja lá qual for o estilo, a gente vai cantar, porque pra gente é sempre uma troca. E daí veio a idéia da feira, e o Carcará que era a figura mais bizarra pra ser um “Cara de Fudê”, que é a pessoa equivocada, o amor é cego. A gente se apaixona por cada pessoa…

PP: E a feira, por que a feira? A feira é o lugar da liberdade. A feira livre é o lugar da variedade, da diversidade. Ali você encontra pessoas com barracas estabelecidas, pessoas com barracas menores, pessoas com panos no chão, branco, preto, azul, amarelo, rico, pobre, de cada região, todo mundo vai à feira, todo mundo conheçe uma feira, pelo menos aqui no Brasil. E a rua é o grande poder criativo, ali burbulha tudo. A feira é uma grande troca da diferença. Ali esta todo mundo.

AP: E a gente gravou direto com a galera ali, muito legal ver a reação do povo brasileiro, como o povo brasileiro é aberto, é querido.

PP: Não teve essa bobagem de ir antes, não teve essa de “a gente vai antes falar com os donos das bancas”. Até o dono da borracharia, mecânico – nós fomos lá só para nos trocar, na verdade a gente fez o clip ali dentro por que foi uma coisa que foi acontecendo, eles viram, entenderam...

AP: Ali tinha todos os ícones, o caminhaozão, tinha a coisa de trocar óleo, a coisa da oficina mecânica, que mexe com o imaginário sexual masculino: a mulher da borracharia, o calendário da borracharia. E aí a gente vai pra feira. E a gente chamou o Doca [Sander] pra dirigir, porque a gente tem uma grande admiração pelo Doca.

PP: E uma identificação de trabalho também.
   
AP: Como ator também, o Doca é um grande ator, e a gente tinha uma puta vontade de trabalhar com ele, então o chamamos pra fazer esse primeiro clip. Eu acho que o Fulerô precisa de bastante videoclip, é bastante subversivo o que a gente fala. Quem não conheçe a gente pode achar que a gente pode fazer uma coisa feminista.

PP: Não é feminista. É feminino.

AP: É totalmente diferente, entendeu. Muito pelo contrário.

PP: E a feira é o grande caldeirão da liberdade mesmo. Você pode gritar, você pode fazer tudo.
Recentemente o produtor americano Disco D fez uma música com os seus vocais de Pinga. Como é que isso aconteceu?
PP: Foi através do Soul Slinger. Ele levou um CD que a gente deu só com as vozes. Ele é amigo do Disco D, então o Soul Slinger o encontrou e apresentou o CD a ele. Ele não nos conhecia, a gente não estava no MySpace ainda, e ele montou a música.

AP: A gente não tinha idéia quem era o cara.
 
PP: A gente achou o maior barato que ele tinha produzido o 50 Cent, o Snoop Doggy Dog...

AP: A gente perguntou pro Camilo [Rocha], “Quem é o Disco D? O Disco D fez um remix nosso, quem é ele?”

PP: E a gente adorou, ele fez uma pegada legal, mais funk carioca, uma pegada mais tchá, , funkão, eu achei o maior barato. E o nosso primeiro encontro, depois da gente saber quem era o cara, foi quando a gente foi na casa dele. Ele nos mostrou a música novamente, mostrou outros trabalhos que ele faz com a galera no Brasil também, o pessoal do Rio, nos mostrou também o lance do 50cent, e a gente viu que estava do lado de um cara que tem um trabalho muito bom. A produção dele, a forma como que ele produz, é exemplar. Ele é foda. Só que ele pega e trabalha com os caras que são uns ganstas, e aí ele falou pra gente na hora, “Eu trabalho com os gangstas, e os gangstas tem aquela questão, ‘Vou comer todo mundo, vou fuder mesmo, mulher é tudo cachorra’”. Só que eu falei “mas nossa música é bem diferente disso, quer dizer, fala da mesma coisa mas é mulher falando”, só que ele teve a visão de falar o seguinte: “O que vocês fazem, sendo mulheres, é extremamente novo, e eu compreendo, mesmo sendo gringo.” Isso aconteceu com ele e com o Jerome. A gente achou muito legal por que ele é norte americano, a gente já fica meio… (risos)

AP: Bate nosso índio.

PP: O indião vem, e você fala “Mim Paula, você Disco D”. E aí foi muito legal, ele foi extremamente legal com a gente, nos chamou pra falar que ia lançar a gente numa coletânea, no mesmo dia fizemos Miss Kitten com ele, usando uma base que ele tinha há anos guardada, e ele viu que a gente chegou e fez, que não tem tempo ruim. Ele gostou, viu a gente pessoalmente, isso fez com que ele entendesse algumas coisas melhor.

AP: A primeira vez que ele viu a gente cantando, a gente cantou Miss Kitten, e ele ficou vermelho.
 
PP: Mas ao mesmo tempo ele é um subversivo. Nós falamos do Novela

AP: Ele pegou a revista Caras e falou “Saí na Caras!”

PP: Ele mostrou, ele namorava a Luciana Vendramini e ele riu dele mesmo, ele falou “Olha! Eu saí na Caras”, tipo “Eu sei do que vocês estão falando! Vocês estão tirando um barato disso!” E ele pegou e não escondeu, ele mostrou.
E o que que vocês acham sobre o fenômeno de funk no Brasil?
PP: Eu adoro.

AP: Eu gosto pra caramba, mas acho que tem que ter uma evolução da mulher, por exemplo você vê a Tati, enfim, elas falam sobre uma questão sexual que é sempre relacionada ao homem, “eu vou fuder com o cara”, “eu vou trepar com aquele cara”, “eu vou roubar seu cara de você”…

PP: É como se elas viessem colocar o pau na mesa.

AP: Mas tem uma questão que eu acho que tem que transformar, a mulher ainda está muito vinculada ao machismo.

PP: Mas ao mesmo tempo a gente não pode esquecer e eu não tenho crítica alguma em relação a isso, que essas pessoas, a Tati, a Deise Tigrona, elas são de uma realidade que a gente não conhece, que é da miséria total, da favela e do chão batido de terra, aonde os homens são extremamente machistas de arrebentar as mulheres na porrada. Isso acontece na favela. Encher a cara, jogar tudo nas costas da mulher, como eu já disse. Então eu acho que a única saída que elas tinham, mesmo, era fazer a música que elas fazem.

AP: Eu acho também que é um protesto dentro da realidade delas. 

PP: E da realidade do Brasil. Hoje ela tem uma outra vida. A música proporcionou pra ela algo que quando que uma empregada doméstica ia conseguir se não fosse prostituta? O quê que ela fez? “Eu vou pegar um microfone e falar todas as besteiras do mundo que eu tenho dentro da minha cabeça, que eu tô com saco cheio de ser acoada nesse mundo, vou ver no que dá.” E aí veio o funk carioca. O funk carioca já tem uma malandragem, uma malemolência que é muito interessante, que é maravilhoso pro Brasil, e que ninguém faz igual. A gente, o paulistano, o paulista, tem um humor também bacana mas é diferente.

AP: É mais intelectual, é diferente. E não dá pra fazer igual. Cada um é cada um. Então eu acho que as coisas coexistem, entendeu. Eu quero ver uma evolução de pensamentos no funk carioca, dessas pessoas, assim como eu quero ver a minha evolução, a nossa evolução de pensamentos também. Eu acredito que o simples fato de existir isso, disso estar bombando no mundo é uma resistência por que é a periferia brasileira da mais fudida conseguindo atingir o mundo. Isso já é do caralho.

PP: Isso nunca tinha acontecido com a música brasileira, nessa proporção. O funk é um fenômeno para qual eu tiro o chapéu. Na verdade tiro a calça pra eles porque pra eles tem que tirar as calças! (risos) Adoro, acho importantíssimo, tem que ter mais gente falando bobagem mesmo, porque a gente vive num país onde as pessoas fogem com o dinheiro na cueca. Depois disso, é uma coisa você pagar de político, pai de família, maravilhoso, e te pegam no aeroporto com dinheiro na cueca?!

AP: Ontem a gente assisitiu o debate. A gente está entre a merda e a merda e meia. Quando eu vi o Bush ser re-eleito, eu falei “Ah, idiotas! Vão se fuder! Americanos idiotas!” Agora isso vai e acontece aqui no Brasil… É uma sinuca de bico você ter um cara da TFP e outro que todo mundo sabe que rouba, todo mundo rouba e virou uma puta de uma baixaria, essa questão da falta de moralidade. Ontem no debate as pessoas debatiam e falavam o que elas queriam e ninguém vai checar. Então é uma falta tão grande de senso com palavras, com um rigor com o que dizem, que o funk carioca é o mínimo disso tudo.

PP: É um reflexo.

AP: Pelo menos no funk carioca a gente tá vendo o que é.

PP: Pelo menos é genuíno. O momento politico é refletido na música. Quando o Collor foi presidente a música que estava em evidência no Brasil era a música sertaneja. Foi quando teve o grande boom de Chitãozinho e Chororó, não sei o que lá e Luciano, essas duplinhas que ficam naquela punhetagem, sabe fica uma coisa disfarçada. Aí com o Lula, eu não sei se a questão dele ser de orígem humilde, arrebentou!

AP: E acho que a gente está vivendo um momento de subversão. Os ataques do PCC... A gente está num momento muito complicado politicamente e economicamente entendeu, a gente não sabe bem em quem acreditar. Nas eleições passadas eu fui votar com nariz de palhaço por que eu não estava achando possível...

PP: Ao mesmo tempo que o funk carioca é um reflexo de tudo isso, o Fulerô também é. Agora, com as nossas armas. Com o nosso traço. Que é diferente de tudo que eu vi, não porque é melhor, não porque é pior, é diferente. A experiênica profissional conta. E o Fulerô está sendo bem entendido, acho que cada coisa tem o seu momento, seu lugar. Em cinco anos eu acho que a gente é vitoriosa. 
xxxx posted 31 May 2007 (21:06:13)
putass...!
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